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rômulo cyríaco

Jul 31

Não há velho mundo

Estou sentado aqui: passa uma pessoa muito nova. Logo em seguida, passa uma pessoa muito velha. A primeira, é a juventude, o frescor. A segunda, as marcas, o cansaço.

Mas é no mundo que ambas estão: e o mundo é sempre novo.


Jul 27

Poema grávido

Não conheço minha mulher ainda e, ainda assim, ela já está grávida de mim em algum lugar do futuro. Algum lugar do futuro: porque o tempo é espaço. E ainda há espaço na minha vida para essas duas vidas outras.

Ou mais. 

E mesmo que eu nunca a conheça, ainda assim ela carregará o meu filho por aí, pelo mundo, pelo espaço a fora, pelo espaço a dentro, no futuro. Em outro planeta, em algum lugar. E esse filho nascerá, e será belo, e chorará como qualquer bebê bonito, todo melado, com as bochechas rosadas. 

Depois vai ficar rindo, com a boca suja de mingau.

É claro que isso tudo é um sonho: na realidade, eu já estou, no futuro, penetrando a vagina da minha mulher sem qualquer artefato, e meu esperma fecundará o seu óvulo preferido em alguns minutos. Isso será em algum lugar. E a vida, então, falará a língua da vida mais uma vez.

Não terá sido a mulher da minha vida, mas a minha vida terá gostado dela. Oi, tudo bem? Tudo nesse mundo é ou deverá ser outro, e novo. Pois o mundo vai acabar. A vida, não. Vocês todos, um dia, serão a expressão de uma outra coisa, tal como na verdade já são.

E quando tudo isso acontecer, outra mulher estará grávida. E este será o último poema jamais escrito. Grávido de um milhão de outros.


Jul 24

O que não é um poema

Escrevi todos os poemas antes de nascer -
e agora estou lembrando deles, um a um.
Apenas este aqui não havia sido escrito então.

Escrevi dois poemas antes de nascer: 
de um deles, já lembrei. Você sabe qual é.
E sabe, também, que não é esse aqui.

Sonhei com uma estrofe de outro, certa vez,
esqueci ao acordar. É como algo que fosse tão brilhante
que não se pudesse lembrar: que só se pudesse brilhar.

Algo que nada teria a ver com o lembrar e a memória.
Algo como lembrar do que tá acontecendo agora:
O que não é um poema: é a própria vida.




Apr 22

Doce fúria

Quando era apenas nada
Fui pro baile da terra -

Dancei ao amanhecer
Um ritmo desconhecido.

Horas mais tarde,
Engracei-me com o crepúsculo

Engajei-me em comunhão sedenta
Com a fúria do resto do mundo.

Nascido vesgo, sabendo ler
O mapa dos movimentos internos

As moções endógenas
Pré-noções indígenas -

Eu sou mais que meu eu
Vida centrífuga de doce fúria.


Oct 30

a primeira casa que nasceu naturalmente

encontrei passeando no quintal 
a primeira casa que nasceu naturalmente.
nasceu do chão, como batata.
agora estala na mão aqui
como um livro dos sonhos.

os sonhos vem de fora das pessoas.
o lado de fora está cheio de sonhos.
foi o que descobri no meu último.
era um baú, retirei a tampa, um barco:
da tampa, dois remos, era mais de um
a quantidade de oceanos que esperavam
e que percorri.

outro dia, e não há dia que não seja outro.
outra será a noite. 
oceanos que virão de fora das pessoas,
e que correrão dentro, os sonhos que correrão
dentro, que correrão no oceano.
diferentes ondas de um mesmo mar

juntarão a manhã de um dia
com a noite d’outro, em encaixe
o tempo é todo assim.
farão do vento ar, farão 
a ti aparecer, como apareci,
em cozinhas de entre-dias

já vivi em um tempo mítico 
por minutos que deixei de contar
e foi gostoso também é o agora.
será mítico? nem mesmo faço a pergunta.
quem faz é a própria resposta
que sente-se dada.
quer-se dar-se). 


Jul 13

com ti

muito louco é do que não dá conta
a razão, é muito louco, é muito louco
"é muito bom." ele, não desesperador
ela, não desesperatriz. 

mensagem simultânea tá vindo vem
veio. não soube quem perguntou ou
respondeu quem - ele tão esperador
quanto ela esperatriz. 

no corpo, eu espero e você espera
a gente espera junto e, aqui-aí, é não
mais esperar: é direto ter, direto fazer
faço eu 

com ti

nua.


Jul 2

Adendo a “desmaio”

Para o que seria desmaiar
e continuar acordado
1
ver o desmaio
ver no desmaio
abre bem
2
ver
ano inteiro vazando 
entre o mês desmaio
abre dez oito meses
cá lendário.


Jun 28

Por pés que já venham com chão?

Não.


Jun 9

'A vida é melhor em cima da mesa', e outros nomes de meninas.

Como toda fruta
você tem suco.
Pensar em limão dá nisso
Pensar em você
Dá naquilo. 

AQUI ENTRA UM DIA.

Suas cerejas
me conquistaram.
como me explicar?
você estava implícita
eu mexi em você
você ficou explícita 
eu sei
a respeito
dos movimentos
que você fará
em seguida
não como um vidente
mas como na sua tomada
me te ligasse
meu deja vu seu.

Hesita mulher
ao longo viaja
pensando como
surpreender.
Quebra sua cabeça
encontra enfim
O corpo. Poderia sair 
vitoriosa 
da equação que propus. 
Preferiu sair 
vitoriana. 

ESCREVENDO UM OUTRO NOME.

Medi minha mão
Medi você
Mesmo tamanho. 

AQUI ENTRA UM VASO DE FLORES.

Textos enigmáticos
enigmas textuais
podem vir a haver
vão dizer:

uma das meninas
dormindo ao lado
sonhando comigo:
"As passagens…
Você juntava todas
as passagens
coloridas”.

era isso…era isso…o que você fazia. 

UMA JANELA ABERTA (DUAS FOTOS). 

A mão confirma o tamanho
no corpo. Uma vez confirmado
Desafia o tamanho.

Mais janelas, em uma era de espelhos.

É que a vida é melhor em cima da mesa,
mesmo. e outros nomes de meninas.


May 25

Dos rascunhos 04/2012:

"Cheguei aqui na Bahia
proprietário da boa argila.
Vinho de palma passado
perturba o trabalho.
Onde tem copo d’água
claro, simples, límpido
com pouco cloro
nenhuma dúvida?”

final alternativo:

"com pouco cloro /
certeiro.”


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