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rômulo cyríaco

Oct 9

os dois magos

ganho de novo a sensação-presente de estar num planeta — e quem quer que tenha agora essa sensação, neste ou noutro planeta, se comunica comigo — se comunica comigo através desse olhar ao céu, olhares que se mandam, que se propagam no céu, como mensagens interestelares. sabe-se que o olhar manda energia, e não apenas recebe do mundo.

o sol é um amigo caloroso com quem podemos conversar de dia, e que nos conta coisas boas, coisas novas — a lua é esse que aparece no crepúsculo, inaugura a noite profunda e se mantém em segredo, cuja força penetrante é uma força de segredo. isso quando não se torna invisível, com a presença ainda evidente:

a lua é invisível no céu, e ainda seu reflexo numa rua: não em todas as ruas, mas apenas numa, a rua que foi escolhida pelo mistério, rua pequena, e não é que seja sem saída, é que não se precisa de nada que esteja fora dela quando se está nela, porque o fora dela já está nela, ela é o próprio fora; lua invisível e luminância profunda, luz que deixa entrever o mistério.

há algo que nos conta maravilhas sem dizer uma palavra — a palavra é subestimada, superestimada, multiestimada, é estimada de todas as formas e por todos os cantos — de pouco adianta, também, idealizar o silêncio, pois ao silêncio não se agarra nenhuma ideia, nenhum conceito. o silêncio é pedra revestida de limo — em que escorregam os pés do conceito.

e talvez aí, com o joelho ralado, vá perceber que o sol é redondo e que, enquanto manda raios para cá, manda raios também para o outro lado, para lá, onde nunca estivemos, onde nunca, talvez, estaremos. onde sei que estarei.

existem crepúsculos, pores de sóis, deste ou de outros, em horizontes nunca antes vistos ou explorados, cores e paisagens que sequer, hoje, podemos imaginar. mundos belíssimos, desertos, que vivem em êxtase desassistido —
mares mais profundos e salgados 
nuvens mais densas, negras
chuvas mais sublimes e claras
árvores maiores, mais frondosas
temporais mais indomáveis

muito longe daqueles que, não sabendo onde o mundo acaba, querem, fantasiosamente, construir-lhe muros. 

mais perto dos dois magos, que vêm andando sorrateiramente por aquela rua escura, na noite mais profunda do ano, por debaixo da copa da grande árvore, juntos, encostados um no outro, cochichando um no ouvido do outro grandes segredos da vida, do cosmos. os dois magos e a sensação que a lua manda para meus olhos e para meus canais coronário e frontal.


Oct 6

sol brilhante - mundo idiota

"a sanfona é bonita,
mas essa música tá chata”,
diz a menina uniformizada,
comendo biscoito na praça.
eu diria o mesmo dela:
é bonita, mas tá chata.
a sanfona é cósmica
e sertaneja — chora —
na caçamba de um caminhão
de mudanças, aberto, sob
uma árvore secular,
cuja sombra, que mantém as coisas em segredo,
jamais fez aniversário.
o sol inunda a praça — banha os seres
de mais idade, banha os jovens, os cães, os gatos — banha tudo.

o sol dá um banho 
nesse mundo
que elege gente idiota e criminosa
pra governar
isso que chamam de sociedade —
o fenômeno mais mesquinho e imbecil do universo.
um sol brilhante
para um mundo idiota.
mas é possível que ele venha a iluminar algumas cabeças,
aquecer alguns corações, esquentar alguns pés, membros, olhos, dedos
que poderão experimentar um momento de brilho
em meio a esse lamaçal inacreditável.

as pessoas falam da manhã, “a manhã, a manhã”,
"eu gosto da manhã", mas não existe a manhã de que falam.
o que existe é essa, essa manhã, de que não falam.
ninguém fala dela, ninguém a nota: a manhã, a manhã!
as ideias são óculos opacos entre nossos olhos e as coisas.
o que dizer, o que viver dessa manhã? desse dia?
que provavelmente dará lugar a uma tarde,
e a uma noite, em seguida — possivelmente.
veremos logo mais.
veremos mais, logo.
veremos como vemos, agora, essas flores rosas
balançando ao vento —
veremos e ouviremos, logo mais, 
como vemos e ouvimos agora 
a sanfona, rindo
a menina chata, indo.

o mundo precisa mudar.
o caminhão de mudanças, já temos,
apenas aguarda o chamado
e o novo endereço,
enquanto a música o pressente.
ouço palmas: alguém vai cumprimentar
o sanfoneiro; o sol inundou tudo
e nos manda um recado
pelo próximo refrão:
"eu poderia derreter
suas calotas polares”.


Sep 27

amanhã, todos despencarão do alto.
o mundo será outro.
meus pés tocarão nos seus.
Perséfone - Zeus.

um local vai se formar, à nossa frente.
eu vou vir - você vai vir. 
uma tempestade furiosa
inimaginável
devastará todo o mundo.

a beleza, morta há milênios, ressuscitará.


Jul 31

Não há o velho mundo

Estou sentado aqui: passa uma pessoa muito nova. Logo em seguida, passa uma pessoa muito velha. A primeira, é a juventude, o frescor. A segunda, as marcas, o cansaço.

Mas é no mundo que ambas estão: e o mundo é sempre novo.


Jul 27

Poema grávido

Não conheço minha mulher ainda e, ainda assim, ela já está grávida de mim em algum lugar do futuro. Algum lugar do futuro: porque o tempo é espaço, e no futuro há um lugar. E ainda há lugar na minha vida para essas duas vidas outras.

Ou mais. 

E mesmo que eu não a conheça, ainda assim ela gostaria de carregar o meu filho por aí, pelo mundo, pelo espaço a fora, pelo espaço a dentro, no futuro. Em outro planeta, em algum lugar. E esse filho nascerá, e será belo, e chorará como qualquer bebê bonito, todo melado, com as bochechas rosadas. 

Depois vai ficar rindo, com a boca suja de mingau.

É claro que isso tudo é um sonho: na realidade, eu já estou, no futuro, penetrando a vagina da minha mulher sem qualquer artefato, e meu esperma fecundará o seu óvulo preferido em alguns minutos. Isso será em algum lugar. E a vida, então, falará a língua da vida mais uma vez.

O mais importante não é a mulher da minha vida, mas a vida da minha mulher. Oi, tudo bem? Tudo nesse mundo é ou deverá ser outro, e novo. Pois o mundo vai acabar. A vida, não. Vocês todos, um dia, serão a expressão de uma outra coisa, tal como na verdade já são: vocês todos vão acabar, a outra coisa não.

E quando tudo isso acontecer, outra mulher estará grávida.
E este será o último poema jamais escrito. Grávido de um milhão de outros.


Jul 24

O que não é um poema

Escrevi todos os poemas antes de nascer -
e agora estou lembrando deles, um a um.
Apenas este aqui não havia sido escrito então.

Escrevi dois poemas antes de nascer: 
de um deles, já lembrei. Você sabe qual é.
E sabe, também, que não é esse aqui.

Sonhei com a estrofe de outro, certa vez,
e esqueci ao acordar. É como algo que fosse tão brilhante
que não se pudesse lembrar: que só se pudesse brilhar.

Algo que nada teria a ver com o lembrar e a memória.
Algo como lembrar do que tá acontecendo agora:
O que não é um poema: é a própria vida.




Apr 22

Doce fúria

Quando era apenas nada
Fui pro baile da terra -

Dancei ao amanhecer
Um ritmo desconhecido.

Horas mais tarde,
Engracei-me com o crepúsculo

Engajei-me em comunhão sedenta
Com a fúria do resto do mundo.

Nascido vesgo, sabendo ler
O mapa dos movimentos internos

As moções endógenas
Pré-noções indígenas -

Eu sou mais que meu eu
Vida centrífuga de doce fúria.


Oct 30

a primeira casa que nasceu naturalmente

encontrei passeando no quintal 
a primeira casa que nasceu naturalmente.
nasceu do chão, como batata.
agora estala na mão aqui
como um livro dos sonhos.

os sonhos vem de fora das pessoas.
o lado de fora está cheio de sonhos.
foi o que descobri no meu último.
era um baú, retirei a tampa, um barco:
da tampa, dois remos, era mais de um
a quantidade de oceanos que esperavam
e que percorri.

outro dia, e não há dia que não seja outro.
outra será a noite. 
oceanos que virão de fora das pessoas,
e que correrão dentro, os sonhos que correrão
dentro, que correrão no oceano.
diferentes ondas de um mesmo mar

juntarão a manhã de um dia
com a noite d’outro, em encaixe
o tempo é todo assim.
farão do vento ar, farão 
a ti aparecer, como apareci,
em cozinhas de entre-dias

já vivi em um tempo mítico 
por minutos que deixei de contar
e foi gostoso também é o agora.
será mítico? nem mesmo faço a pergunta.
quem faz é a própria resposta
que sente-se dada.
quer-se dar-se). 


Jul 13

com ti

muito louco é do que não dá conta
a razão, é muito louco, é muito louco
"é muito bom." ele, não desesperador
ela, não desesperatriz. 

mensagem simultânea tá vindo vem
veio. não soube quem perguntou ou
respondeu quem - ele tão esperador
quanto ela esperatriz. 

no corpo, eu espero e você espera
a gente espera junto e, aqui-aí, é não
mais esperar: é direto ter, direto fazer
faço eu 

com ti

nua.


Jul 2

Adendo a “desmaio”

Para o que seria desmaiar
e continuar acordado
1
ver o desmaio
ver no desmaio
abre bem
2
ver
ano inteiro vazando 
entre o mês desmaio
abre dez oito meses
cá lendário.


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