Dos rascunhos 04/2012:
“Cheguei aqui na Bahia
proprietário da boa argila.
Vinho de palma passado
perturba o trabalho.
Onde tem copo d’água
claro, simples, límpido
com pouco cloro
nenhuma dúvida?”
final alternativo:
“com pouco cloro /
certeiro.”
“Cheguei aqui na Bahia
proprietário da boa argila.
Vinho de palma passado
perturba o trabalho.
Onde tem copo d’água
claro, simples, límpido
com pouco cloro
nenhuma dúvida?”
final alternativo:
“com pouco cloro /
certeiro.”
O nu não é artístico.
Não é, o nu, pornográfico
O artístico é artístico
O pornô, também, é ele mesmo
e, aí, usam o nu. Artístico
e pornô são duas vestimentas.
Só o nu é o nu.
*
Só o nu é: versão.
Versão natural da natureza total
do corpo. Sexual claro de sexualidade
clara de (digamos, di) versão.
*
O corpo é uma versão do próprio
corpo porque versa a si mesmo.
Não há diferença entre esse poeta que
se chama corpo e esse poema que
se chama corpo. Não se for corpo.
Pois é versão só, não é SUB
nem PER muito menos gera A.
*
O corpo pulsa chegar
no corpo total sob o risco
de perder a cabeça, todas
que querem sofisticar o pulsar
do corpo total chegar
e se a cabeça cair, chutar
cresce outra no lugar.
-logo:
1. monó-.
2. diá-.
1. 2. 1. 2. 1. 2.
monodiálogo
diamonólogo.
pra quem não quer
com versar
vergir
binar. hein?
contro. hein?
cum- não com-
-plicidade não
-plicar.
tom professoral
em mesa de bar…
[onde consigo um itálico ao contrário, deitado pra esquerda, pra esse verso complementar:]
…pra quem só ouve
por um ouvido.
jamais por um ouvir.
[bom, vai retinho assim mesmo].
Desvendei o mistério e ele permaneceu misterioso.
Uma deusa vai percorrer o meu corpo.
Você sabe que uma deusa vai andar no meu corpo
E carregar meu cheiro nas ruas.
Quando perdermos a consciência, teremos saído do mundo que conhecemos. Inebriados pela graça, pela doçura. Talvez para nunca mais voltar, com outro fio de olfato, eu procurei, eu procurei. No mundo não tem aspas. Tem gosto.
onde se arruma
um copo d’água.
claro, simples, límpido
com pouco cloro
e sem dúvida.
que é bebido.
que embebe.
maré baixa só
num dá mar.
que se deixe a maré subir,
a partir do copo
que se deixe inundar
a partir da boca
dar sim, dá mar.. ôu
vai encarar, garganta?
garganta que tem olhos mas não vê
por água turva
tens a garganta míope?
és a água turva?
a primeira, engole que limpa
a segunda, seja engolida
que limpa.
simplificando as coisas.
nãoplificando as coisas.
*
água que hesita em ser engolida
assemelha-se a um meio-ser,
um dejeto, rejeita-se.
água desidratada
é o fim.
Como se Ana houvesse virado seu organismo inteiro do avesso apenas no suspense, na excitação do que eu me aproximava de dizer. Tive (possuí) a sensação de que as frases que compunham a história que eu contava, uma a uma, após a outra, estavam todas já faladas, fisicamente conjuradas, estendendo-se do presente ao futuro, eu apenas as percorria da maneira que elas eram, como alguém percorre uma partitura utilizando de um instrumento musical. Como um caminho. Como um carinho. Então temos frases prontas, pulsando no mundo, onde for, nunca antes ditas ou combinadas de maneira tal. Algumas das frases que eu disse naquele momento com certeza já haviam estado em outras histórias; estas, com conteúdos bastante diferentes da minha; assim é a versatilidade verbal primordial. Eu e Ana pensamos a experiência das palavras, das frases. A palavra ‘casa’, ela tem um trabalho, uma carreira. Trajetória, currículo. As frases como ‘Ana houvesse virado seu organismo inteiro do avesso’ podem ser raras, mas são utilizadas aqui e ali ao longo dos séculos, é preciso rastrear esse uso. E as combinações que nunca foram feitas, que tal elas? E as frases que estão até hoje, prontas, esperando serem usadas pela primeira vez? Frases que nem foram feitas ainda. De que existem espíritos aqui, não há dúvida: por outro lado somente as olheiras de Ana, e o burburinho sedutor do casal que conversa ao longe sobre um apple strudel e dois cafés, dois cafés à noite, fazem-me pensar que na verdade não há espíritos de que existem dúvidas aqui: são dúvidas que perambulam no ar aguardando uma decisão, não são espíritos aguardando corpo. ‘Dá no mesmo.’, diz Madalena ao trazer pra mim um chocolate bem quente e um pão com manteiga. Eu, e Ana, gostamos de tomar café da manhã à noite. Contei para Ana sobre a experiência da semana anterior. Ela dedicou atenção, tanta que houvesse virado seu organismo inteiro do avesso (terceira ocorrência): deixei-me estender nos detalhes por conta do brilho notável em seus olhos ao ouvir minhas palavras. Em um dos detalhes, me estendi bastante. Estendi o meu corpo mesmo nesses detalhes, alongando os meus músculos sobre a mesa do café silencioso e vazio, a gente em um canto discreto. Uma música suave começou a tocar a partir da pele dela. A música tomou todo o ambiente. Como você faz isso, Ana? Como toca música da sua pele? Tudo na minha história era brilhante, no sentido de que continha mesmo um brilho; era a história de um brilho. O quarto era escuro. No interior de um apartamento. Os outros cômodos irrelevantes (sem relevo, tornados planos, achatados no terreno da casa). Estava deitado este rapaz sobre uma maca acolchoada, assim eu percebia logo que fui transportado para lá: este rapaz: uma mudança no ponto de aglutinação da percepção e dei-me conta de que este rapaz era eu. De pé, ao meu lado, uma mulher sem idade, sem aparência nítida, mas definitivamente possuidora de alguma aparência, alguma idade, eu podia intuir ou quase-ver como ela era, mas era como uma aparência tentativa, quase linda, não se deixava ver como qualquer coisa era vista no cotidiano ocular do mundo. Se era noite ou se era dia, não se sabia. Sem janelas, ou qualquer fresta por onde pudesse entrar luz do exterior, o quarto tampouco possuía pontos de luz artificial. No entanto, dentro dessa escuridão mais completa, uma luminância azul aos poucos começou a tomar forma no ar, deslocando-se flutuando sutilmente como leves fragmentadas nuvens, empurradas pelo vento: permitindo-me enxergar um pouco do ambiente. Ali estava eu sobre a maca, à minha direita a mulher. A luminância era uma energia. Eu sabia, sem qualquer dúvida, que a mulher era quem emanava aquela energia azul, aquilo saía dela, era parte dela, ou estava conectado diretamente com ela. Não estivesse ela ali, não haveria brilho azul, ou haveria apenas por causa de sua presença anterior, recente. Ela tinha consciência daquela energia, a manipulava e sem qualquer esforço, isso se sabia. Fui transportado para aquele quarto pelo meu aparelho psíquico: meu corpo, na dimensão real de vigília que conhecemos regularmente, estava estirado em minha cama após uma jornada longa e exaustiva de trabalho: era tudo um semi-sonho, quase dormindo, quase acordado ainda, fluxos involuntários já adentrando. Porém, quando saí daquele outro quarto e voltei a estar no meu totalmente, sabia que aquilo tinha de fato acontecido. A mulher, ela existe. O apartamento, ele existe, e algo me dizia que ficava no bairro vizinho, não sei que rua. Como encontrá-lo? Como encontrá-la? Talvez somente, outra vez, pelos fluxos psíquicos, em sonhos ou semi-sonhos. Intriga perceber que o que importa em uma história que está sendo contada não são as palavras de todo. Todas as palavras que eu dizia, separadamente, Ana já as havia ouvido: porém, nunca antes estiveram naquela exata ordem, para ela, revelando aquele acontecimento específico, naquela combinação que, justamente, dava vida às revelações às quais tive acesso com tal vivência. A conclusão é que algo de novo e maravilhoso, fascinante, arrebatador, pulsante, inaugurador de novos mundos, pode vir à tona a qualquer momento através de palavras que, em si mesmas, já estão e estavam reveladas para todos nós, existentes nos dicionários, nos glossários, nos vocabulários. Uma questão de organização. No tempo cronológico, sei que menos de dois minutos se passaram de verdade; talvez menos de um minuto, não há certeza. Alguns segundos no relógio e havia sido o suficiente para que toda aquela extensão de tempo, psiquicamente, fosse experimentada. Diferente de um sonho passível de ser analisado, aquilo não clamava por qualquer interpretação, não haviam símbolos, era experiência direta e imediata. O que vivenciei, naquele quarto escuro com a luminância azul, revelava-me algo que eu não sabia de modo algum antes de ter sonhado: fosse ainda um sonho, seria então revelatório. Acordei com um conhecimento anteriormente não disponível para mim, e ainda assim fundamental. Ana chorava ao ouvir. O casal pedia mais um café para dividirem e fecharem a conta. Era 23:32, marcava o relógio de ponteiro na parede do café. A mulher de pé ao meu lado na maca me tocava com uma de suas mãos, a cada vez em uma parte diferente do corpo. Tocou perto do meu ombro direito. No exato instante do toque, um fluxo externo - de fora para dentro - se iniciou em mim: uma corrente de pensamentos e sensações que me eram inteiramente estranhos começou a desfilar pela minha mente e meu corpo. Senti medo. Pertenciam a outras pessoas, não eram meus. E no entanto eu os pensava, eu os sentia. Uma sensação de angústia e ansiedade me foi crescendo e se apoderando do organismo. No instante em que a mulher retirou sua mão da região do meu ombro, todos os pensamentos e sensações que me eram estranhos cessaram, e novamente me encontrava com os meus próprios fluxos, reconhecíveis enquanto meus. Aliviou-se minha ansiedade. Ela voltou a me tocar, em outro ponto do corpo, na região do peito. Os fluxos desconhecidos se iniciaram mais uma vez, ainda mais fortes. Imagens e sons, como memórias alheias, espalhavam-se involuntariamente em meu pensamento, independente de qualquer esforço que eu fizesse de afastá-los. O mesmo com sensações corporais e emocionais que não me pertenciam e que ali estavam, comigo. Ela afastou do meu peito a sua mão e estava eu comigo mesmo e meus próprios processos, era seu toque que canalizava aquele fluxos do mundo para as minhas correntes. Aquela possível abertura da minha membrana a fluxos outros me aterrorizava. Foi então que ouvi a voz da mulher pela primeira vez, sem que ela sequer abrisse a boca ou fizesse qualquer movimento com seus lábios ou sua garganta para falar. Tocando-me em um terceiro ponto, enquanto a ansiedade crescia com consistência em meu corpo que era outra vez invadido por conteúdos estranhos, falou assim: ‘Fique tranquilo. Isso passa por você, você sente isso, mas isso não é seu. Isso está apenas passando por você’. Aquelas palavras abriram uma porta para mim, desvelaram uma nova possibilidade de economia. Sabia eu, então, que deveria relaxar, sentir tudo aquilo que passava, sem medo. Se eu permitisse o sentir, logo também o passar seria permitido e se concluiria. Aquelas coisas me atravessavam, de fato, mas não eram minhas: a sensação que elas suscitavam em mim, estas sim eram minhas e precisavam ser sentidas plenamente. Ana e eu, com sono, pensando em como voltar a entrar em contato com aquela mulher. Não sei dizer porque, me vieram imagens de um trecho exato do bairro onde morávamos, sugerindo um movimento em direção ao túnel que nos liga ao bairro vizinho - por algum motivo, então, eu sabia que a mulher se encontrava por ali. Era uma dica, uma pista. Como encontrá-la na realidade para obter mais dos seus conhecimentos brilhantes? Ana se dispôs a ajudar na busca. Mais do que isso, parecia até mais importante para ela, encontrar a mulher, do que para mim mesmo. Nos dias subsequentes, Ana começaria a rodar sem rumo pelos trechos que visualizei após o semi-sonho, na esperança de localizá-la intuitivamente, ou ser contactada por ela. Ana me mandava relatórios sobre a busca no fim de cada dia. Ana ficou nessa por algumas semanas, tornou-se uma obstinação. Ela queria viver a intensidade de um contato com aquela mulher, tal como eu havia vivido. Uma noite eu liguei para Ana, com o pensamento em um rio de clareza, dizendo que alguém como aquela mulher - que chegara ao ponto de encontrar a reorganização perfeita para um grupo antigo de palavras, ou para um grupo antigo de afetos, capaz de ver o que a gente pode ver mas não vê, de sentir o que a gente pode sentir mas não sente - ela provavelmente não poderia ser enxergada por nós da mesma forma como vemos todas as pessoas e os objetos comuns da nossa realidade mais cotidiana. Ana me perguntou então se eu achava que a mulher era um espírito. O espírito de alguém morto? Não, eu não acredito nessas coisas. Ou ao menos não acredito que seja o caso dela: ela é bem viva. Ela é mais viva do que a gente - em vez de menos viva, em vez de morta - e é essa vida extra a qual ela tem acesso que a faz assim, como de uma outra dimensão da realidade. Você só vai vê-la na rua, ou em qualquer lugar, se puder enxergar as coisas como ela pode. E se você puder fazer isso, a própria busca por ela já estará suprida. Nós dormimos no café, naquela noite, dormimos sem perceber - apagamos. Amanhecemos no próprio bar, Ana com a cara na mesa, louça suja e funcionários roncando lá dentro. Desamarrei meus cadarços, fiquei descalço, corri para fora do lugar num só impulso e atirei meus sapatos pra cima: eles não voltaram a cair. À noite, quando eu leria algo a respeito de uma energia vital que, num quarto escuro, emite uma luminosidade de tons azulados, lágrimas espontâneas fariam a tinta se desprender do papel, derreter, escorrer. Liguei para Ana, isso foi no meio da noite.
em sonho o corpo virou vento
o vento era mais que o corpo.
corpo então mais que o corpo.
nada é apenas nada e pronto.
essa tarde, se
ondulou pra mim,
escorreu, eu também
escorri, vieram
sonhos, fomes,
eu escorri de volta,
(eu escorri de ida.)
estão construindo
a casa, a varanda
a ilha onde vou morar.
estão fazendo o mar
onde vou pescar -
e eles nem me
conhecem ainda.
a noite se ondula
a manhã se ondula
várias noites várias
manhãs, passagens
se ondulam, há
a passagem do tempo,
e há o tempo
de cada passagem -
o que me é fascinante.
acontecer é passar
passar bem
e bonito;
*
o céu, as nuvens,
o chá, o café;
a toalha de mesa;
as nuvens
necessariamente
dentro no meu café
a chuva no chá
se comunica,
tudo é clima,
tudo é o clima.
ALI BLA BLA e as 40 abordagens hollywoodianas da vida.
BLA BLA BLA e a abordagem hollywoodiana da vida.